
Maratona
Cortou caminho na maratona? O brasileiro que caça atalhos nos dados do chip, e por que perder um tapete não é trapaça
Por Pedro Henrique SantosHistórias e comunidade
Na terça-feira, 27 de outubro, o R7 publicou a história de Roberto Abrahão, engenheiro de computação brasileiro que mora em Nova Jersey, nos Estados Unidos, e criou um algoritmo para apontar quem corta caminho em maratonas. O trabalho dele já tinha aparecido no Estadão, em junho, e virou notícia na Holanda neste mês, depois que a organização da Maratona de Roterdã tirou um participante do resultado. O assunto chega perto de um domingo em que muito brasileiro vai acompanhar parciais ao vivo: a Maratona de Nova York é amanhã, 1º de novembro.
Como o método funciona
A lógica cabe em três perguntas. A primeira: o corredor passou por todos os tapetes de cronometragem? Segundo o R7, o algoritmo lê os resultados nos sites oficiais das provas e encontra quem não tem registro em algum dos tapetes, que costumam ficar a cada cinco quilômetros. A segunda: o ritmo entre duas parciais é possível? O Estadão descreveu que o sistema calcula a velocidade entre os pontos e marca quem aparece acelerando a ponto de bater recorde mundial. A terceira: o trecho sem registro fica num lugar do percurso onde é fácil encurtar? Depois disso, segundo o R7, Abrahão estuda o traçado da prova e o ritmo do corredor de um ponto a outro.
Com isso ele monta uma lista de números de peito e manda para a organização, que decide o que fazer. Nos vídeos do perfil UmGolpePorMilha, de acordo com o R7 e o Estadão, ele não expõe os corredores. Ao Estadão, contou que a ideia nasceu da percepção de que todo mundo sabe que alguém corta caminho e que "os dados estão lá disponíveis para qualquer um ver".
O Estadão registrou que o primeiro vídeo, de 24 de março de 2026, tratava da Maratona de Tóquio e mostrava 22 casos suspeitos. Depois vieram, entre outras, Los Angeles, Roma, Paris, Boston, Londres, Madri, Praga, Copenhague, Rio, Barcelona, Milão, Porto Alegre e Lima. As provas brasileiras aparecem nessas reportagens apenas como provas analisadas, sem detalhamento de casos.
O caso de Roterdã
Foi na Holanda que a análise teve consequência documentada. Ao jornal AD, em 14 de outubro, Abrahão disse que 105 concluintes da Maratona de Roterdã, disputada em abril, ficaram sem algum ponto de controle, e que não os chamaria de trapaceiros por isso. Um deles, segundo o jornal, perdeu o registro dos 35 km e levou 12 minutos para ir do km 30 ao km 40. A emissora pública NOS lembrou que o recorde mundial dos 10 km é de 26min31s.
A organizadora, Golazo, confirmou ao AD que, depois de uma checagem extra, um participante foi retirado do resultado por não ter completado a distância, e que não encontrou outros casos parecidos. Ao mesmo jornal, Abrahão contou que a organização da Maratona de Londres respondeu a um relatório dele dizendo ter retirado corredores da lista de resultados. À NOS, a organização disse que o sistema de cronometragem verifica, depois da prova, passagens de chip que faltam, que esse participante "infelizmente passou despercebido", que não sabe por que ele não fez o percurso inteiro e que não acredita que se trate de trapaça (tradução livre do holandês).
Por que isso importa para o amador
Quem corta caminho não tira tempo só de si. Algumas provas exigem índice até de amadores, e a Maratona de Boston é o exemplo mais conhecido. Um tempo falso pode ocupar a vaga de quem treinou meses para conseguir o índice, ou empurrar para fora do pódio da faixa etária quem correu os 42,195 km inteiros. Há também uma questão de respeito: o resultado de uma maratona só vale alguma coisa porque todo mundo combinou fazer o mesmo percurso.
Em provas sob as regras da World Athletics, o ponto é claro. A regra técnica 55, na edição 2026, diz que o atleta que sai do percurso marcado e com isso encurta a distância deve ser desclassificado.
O lado justo: perder um tapete não é fraude
O próprio Abrahão faz essa ressalva. Pela análise dele, contou ao AD, de 6% a 12% dos maratonistas perdem algum ponto de controle por ano, e isso sozinho não indica trapaça. Em tradução livre do holandês, a explicação que ele deu ao jornal: "Um chip pode deixar de registrar um ponto de medição, ou pode haver uma falha técnica. Mas, se alguém também perde um checkpoint, depois acelera de forma notável e isso acontece num lugar onde é fácil cortar caminho, aí fica suspeito."
À NOS, ele citou outras explicações possíveis para um tapete sem leitura: falha técnica ou um trecho corrido pela ciclovia enquanto o tapete estava na pista dos carros. A Golazo também disse ao AD que um registro ausente pode ter causa técnica. E há quem abandone a prova e volte para a área de chegada por fora do percurso. Em 2023, Mario Kadiks, então diretor da Maratona de Roterdã, disse à NOS que não via isso como trapaça, mas que esses corredores são retirados do resultado.
Chip, número de peito e resultado: o que dizem as regras
- Na maioria das provas o chip vem colado no número de peito. O regulamento da Maratona de Jurerê 2026, cronometrada pela Chronomax, é um exemplo: o uso do chip é obrigatório, não usar pode levar à desclassificação, e o número deve ir preso com alfinetes na frente do uniforme, sem dobrar, amassar nem rasurar.
- O guia do corredor da Maratona de Nova York de 2025, da organizadora NYRR, explica que o chip atrás do número tem antenas que não podem ficar cobertas. O número deve estar visível na frente do tronco a prova toda, preso nos quatro cantos, sem cortes ou dobras, sem girar e sem jaqueta, colete de hidratação ou cinto de gel por cima.
- Se faltar uma parcial no seu resultado, a central de ajuda ao atleta da ChronoTrack, empresa que cronometra Nova York, diz que o número provavelmente não foi lido naquele ponto e orienta procurar a organização pelos contatos do site oficial do evento.
- No regulamento de Jurerê, os resultados podem ser atualizados por revisões e desclassificações, e divergências depois da publicação oficial devem ser tratadas com a empresa de cronometragem pelo SAC indicado no site oficial. Prazos e canais mudam de prova para prova, por isso o regulamento da sua corrida é a referência.
- Se o resultado sair sem parcial ou com DQ (desclassificado), o caminho é o canal oficial da prova ou da cronometragem, e não a discussão em rede social. Guardar o arquivo do relógio ajuda a mostrar o que você correu, mas a decisão é sempre da organização.
Amanhã, domingo, quando as parciais de Nova York estiverem rolando na tela, um buraco num tapete vai continuar sendo só isso: um buraco num tapete. Quem decide se foi atalho é a organização, com os dados todos na mão.
Foto de capa: antenas e tapete de cronometragem na linha de chegada da Zimní běh Litní, corrida de inverno em Liteň, na República Tcheca, em janeiro de 2015. A foto é ilustrativa e não mostra nenhuma das provas citadas.
