
Treino
Semana depois da prova: quando voltar a correr e os sinais de que é cedo demais
Por Rafael MendesTreinos e performance
O fim de semana foi cheio. Teve a Maratona de Chicago no domingo, 11/10, e várias provas regionais aproveitando o feriadão de 12/10. Se você correu um 5 km, um 10 km ou uma meia maratona, a medalha já está pendurada, e agora vem a pergunta que todo mundo faz na segunda ou na terça: quando eu volto a treinar de verdade?
A resposta honesta é "depende". Depende da distância, de quanto você forçou, de como estava a sua preparação e de como o corpo está respondendo agora. Por isso este texto não traz uma tabela com dia e hora. Traz um roteiro simples e ajustável para os dias 1 a 7, com faixas de exemplo por distância, e uma lista de sinais que pedem freio. Use como referência e ajuste ao seu caso. Se você tem treinador ou acompanhamento profissional, a palavra final é de quem conhece o seu histórico.
Uma observação antes de começar: se a sua dúvida é sobre o dia seguinte, se vale um trote regenerativo ou se é melhor descansar, a gente já tratou disso em depois da prova ou do longão: quando o trote regenerativo ajuda e quando o descanso manda. Aqui o foco é a semana inteira.
Dias de descanso ou atividade leve
Os primeiros dias depois da prova não são para "manter a forma". A forma que você construiu não some em poucos dias de calma. O que vale agora é dar espaço para o corpo se reorganizar depois de um esforço que, para quem correu forte, foi bem acima do normal.
Na prática, esses dias podem ser de descanso completo ou de atividade leve: caminhada sem pressa, pedal tranquilo, mobilidade suave, alongamento sem forçar. Para muita gente, sair de casa e se mexer um pouco ajuda a sentir as pernas menos travadas. Para outros, o melhor é ficar parado mesmo. As duas escolhas são válidas.
Quanto tempo dura essa fase? Como regra geral, quanto maior a distância e quanto mais perto do limite você correu, mais longa ela tende a ser. Quem fez um 5 km confortável pode estar pronto para trotar em pouco tempo. Quem fez a primeira meia maratona, e chegou no fim arrastando, vai precisar de mais dias. Não existe uma conta fixa, tipo "um dia de folga para cada quilômetro". Fórmulas assim parecem práticas, mas ignoram tudo o que faz diferença no seu caso.
E a comida, a hidratação e o sono desses dias? Esse assunto é da Camila Rocha, que explica o que comer, beber e como dormir nas 48 horas depois da prova. Vale ler junto.
A primeira rodagem leve
O primeiro treino de corrida depois da prova tem um único objetivo: conferir como o corpo está. Não é para testar o pace, não é para ver se você "ainda tem" e não é para compensar os dias parado.
Algumas orientações para essa primeira rodagem:
- Curta e fácil. Menos tempo do que um treino leve normal da sua planilha. Se der vontade de esticar, guarde para a próxima.
- Ritmo de conversa. Você deve conseguir falar frases inteiras sem ofegar. Se não consegue, está rápido demais.
- Percurso plano e conhecido. Evite subidas fortes, descidas longas e terreno irregular. Se for possível, escolha um lugar onde dá para encurtar e voltar para casa a qualquer momento.
- Sem relógio mandando. Use o relógio para registrar, não para perseguir número.
- Escute o depois. O sinal mais útil às vezes aparece no dia seguinte. Se você acordar bem, ótimo. Se acordar pior do que antes da rodagem, é recado para voltar a pegar leve.
Se durante esse primeiro treino aparecer uma dor que muda a sua passada, pare e volte caminhando. Isso não é fraqueza, é informação.
Quando voltar à intensidade, por distância
Intensidade aqui significa os treinos que pedem esforço: tiros, intervalados, ritmo de prova, fartlek forte, subidas. Eles só voltam quando as rodagens leves estiverem saindo soltas, sem dor e sem cansaço fora do normal. As faixas abaixo são exemplos para um corredor amador que terminou bem, não prescrição. Se você correu no limite, se a prova foi no calor ou se a preparação foi curta, empurre tudo para o lado mais longo da faixa.
5 km. É a distância que costuma permitir a volta mais rápida, mas não se engane: um 5 km corrido no máximo também cansa. Um exemplo comum é fazer um ou dois dias leves, uma ou duas rodagens tranquilas e, se tudo estiver bem, voltar a um treino de qualidade mais para o fim da semana, com volume menor que o habitual.
10 km. O desgaste é maior, principalmente se você buscava um tempo. Um exemplo razoável é dedicar a primeira metade da semana a descanso e rodagens leves e pensar em intensidade só perto do fim da semana ou no começo da próxima, começando por algo moderado, como alguns estímulos curtos, antes de voltar a um treino forte completo.
Meia maratona (21 km). Aqui a recuperação costuma pedir mais paciência. Para muita gente, a primeira semana inteira fica só com descanso, atividade leve e rodagens tranquilas, e a intensidade volta na semana seguinte, de forma gradual. Se foi a sua primeira meia, ou se você terminou muito desgastado, faz sentido esperar mais. Longão também pode esperar: não há pressa em repetir uma distância grande logo depois da prova.
Em qualquer distância, a volta da intensidade deve ser em degraus: primeiro um treino moderado, depois um mais exigente. Se o primeiro degrau pesar demais, recue um passo.
Sinais de que é cedo demais
Alguns sinais indicam que o corpo ainda está pedindo tempo. Eles não servem para diagnosticar nada, só para você perceber que é hora de frear.
- Dor localizada. Uma dor que tem um ponto definido, como na canela, no pé, no joelho ou no quadril, que piora com o impacto ou que faz você mancar, é diferente da dor muscular espalhada de quem correu forte.
- Dor que piora em vez de melhorar. A dor muscular normal costuma aliviar com o passar dos dias. Se está aumentando, preste atenção.
- Frequência cardíaca de repouso acima do seu normal. Se você acompanha a FC de repouso pelo relógio ou mede ao acordar, um valor bem acima do que é habitual para você, por vários dias, pode indicar que a recuperação ainda não terminou.
- Sono ruim e cansaço que não passa. Dormir mal por vários dias seguidos, acordar já cansado ou sentir as pernas pesadas mesmo depois de descansar são sinais para segurar a volta.
- Falta de vontade fora do comum. Um desânimo total para treinar, logo depois de uma prova de que você gostou, também conta.
- Rodagem leve que parece pesada. Se um ritmo que costuma ser fácil está exigindo esforço alto, o corpo está dizendo que não é hora de intensidade.
Dois pontos não admitem meio-termo: dor e tontura não são coisas para aguentar. Se você sente dor que muda a passada, dor que persiste ou piora, tontura, falta de ar fora do normal, dor no peito ou qualquer sintoma que assuste, pare de treinar e procure uma avaliação profissional. Esperar alguns dias a mais nunca vai custar tanto quanto insistir num problema.
Resumo da semana
A semana depois da prova tem um roteiro simples: descanso ou atividade leve no começo, uma primeira rodagem curta e fácil para conferir o corpo, rodagens tranquilas até tudo sair solto e só então a volta gradual da intensidade, mais cedo depois de um 5 km e com mais calma depois de uma meia. No meio do caminho, fique de olho na dor localizada, na FC de repouso, no sono e no cansaço. Se algum desses sinais aparecer, tirar o pé não é perder a forma. É o que deixa você correr a próxima prova inteiro.
