Seu relógio marcou 42,8 km na maratona? Por que o GPS “erra” a distância e como usar o pace no dia da prova
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    Treino

    Seu relógio marcou 42,8 km na maratona? Por que o GPS “erra” a distância e como usar o pace no dia da prova

    Bruno Almeida

    Por Equipamento e tênis

    Você cruza a chegada, para o relógio e a tela mostra 42,8 km. A maratona não tinha 42,195 km? Tinha, e quase sempre tem um pouco mais. A diferença entre o que o GPS registra e a distância oficial é uma das dúvidas mais comuns depois de uma prova longa, e ela pesa justamente nesta temporada: a Maratona de Nova York é hoje, 1º de novembro, e a Maratona de Curitiba está marcada para 15 de novembro, segundo o site oficial da prova (acesso em 31/10/2026). Abaixo, como o percurso oficial é medido, por que o relógio tende a "sobrar" e como usar o pace sem cair na armadilha no dia da prova.

    Como uma maratona é medida de verdade

    As Regras de Competição e Técnicas da World Athletics, edição 2026 (regra TR55.3, acesso em 31/10/2026) determinam que o percurso de rua seja medido pela menor rota possível que um atleta poderia seguir dentro da área permitida da prova. A mesma regra limita a incerteza da medição a 0,1%, determina o uso do método da bicicleta calibrada e recomenda embutir um fator de segurança de 0,1% para que o percurso não seja considerado curto numa remedição futura.

    Na prática, o medidor pedala com um contador mecânico preso à roda, depois de calibrar a bicicleta em um trecho de distância conhecida, medido com trena de aço. O manual de medição da AIMS e da então IAAF (edição de 2004, atualizada em 2008, acesso em 31/10/2026) detalha o processo:

    • a linha medida é a "corda esticada" do percurso, colada no lado de dentro das curvas e a cerca de 30 cm do meio-fio ou de outra barreira sólida;
    • nas retas, essa linha cruza a rua de um lado para o outro sempre que isso encurta o caminho;
    • o medidor não tenta reproduzir o que os corredores vão fazer: ele mede a rota mínima, não a rota provável;
    • sobre a medição entra um fator de prevenção de percurso curto (SCPF) de 1,001, ou seja, 1 metro a mais a cada quilômetro.

    Em resumo, o percurso é desenhado para que ninguém corra menos que 42,195 km. Em artigo de opinião publicado na revista da AIMS em 2009, Hugh Jones lembra que esse fator acrescenta cerca de 42 metros à maratona e que, somado à margem de erro da medição, o percurso real pode ficar até 84,4 metros acima da distância nominal (AIMS Distance Running, abril a junho de 2009, acesso em 31/10/2026).

    Por que o relógio quase sempre marca mais

    O ponto central é simples: o relógio mede o caminho que você fez, e o percurso oficial é o caminho mínimo. Quase ninguém corre a rota mínima numa prova cheia. Os motivos mais comuns:

    • curvas abertas: no mesmo artigo da AIMS, Jones calcula que cada metro afastado da linha interna numa curva de 90 graus acrescenta cerca de 1,5 metro;
    • zigue-zague para ultrapassar, desviar de grupos e mudar de lado da rua;
    • idas e vindas nos postos de hidratação, principalmente quando eles ficam dos dois lados da via;
    • prédios altos, que bloqueiam e refletem o sinal dos satélites e deixam o traçado "serrilhado";
    • pontes com estrutura metálica, tabuleiros inferiores e túneis, onde o relógio pode perder o sinal e reconstruir o trajeto ao recuperá-lo;
    • ligar ou parar o relógio antes ou depois do tapete de largada e de chegada, um dos motivos listados no mesmo artigo.

    Quanto isso soma? Não existe um número único, e desconfie de quem promete um. O artigo de Jones traz dois exemplos concretos: na Maratona de Beirute de 2008, as leituras de GPS reunidas pelo medidor oficial da prova variaram de 42,39 km a 42,82 km, com média de 42,62 km; em uma meia maratona em Londres no mesmo ano, a média das distâncias de GPS publicadas por 26 corredores que reclamavam do percurso foi de 21,548 km, cerca de 2,2% acima da distância oficial, com variação considerável entre eles. São exemplos de provas específicas, não uma regra.

    E o erro do aparelho não vai sempre para cima. Um estudo publicado em 2020 que comparou oito relógios esportivos com GPS em trajetos de distância conhecida encontrou erros médios absolutos entre 3,2% e 6,1% no conjunto dos testes, conforme o modelo, e, no trecho urbano com prédios altos e ruas estreitas, tendência a subestimar a distância. Os aparelhos avaliados são de gerações anteriores às atuais (Gilgen-Ammann e colegas, JMIR mHealth and uHealth, 2020, acesso em 31/10/2026). Ou seja: em uma maratona, a "sobra" no relógio vem principalmente do caminho que você percorreu a mais, e o ruído do sinal pode aumentar ou reduzir esse número.

    Nova York: milhas e cinco pontes

    Quem corre ou acompanha a prova de hoje vai encontrar um percurso que é quase um teste de estresse para o GPS. O plano de interdições divulgado pela prefeitura de Nova York para a edição de 2026 (acesso em 31/10/2026) inclui os dois tabuleiros da ponte Verrazzano-Narrows, a ponte Pulaski, o nível inferior da ponte Queensboro e as pontes Willis Avenue e Madison Avenue. No tabuleiro inferior da Queensboro, por exemplo, o corredor passa sob uma estrutura metálica, cenário típico de perda de sinal.

    Segundo a página oficial do percurso da NYRR (acesso em 31/10/2026):

    • há placas a cada milha e placas de quilômetro a cada 5 km;
    • todos os relógios do percurso estão ajustados ao horário da primeira onda de largada, então o tempo exibido neles não é necessariamente o seu;
    • há postos de água oficiais a cada milha, da milha 3 à 25, exceto nas milhas 5, 7 e 9.

    Para quem pensa em quilômetros, vale lembrar: 1 milha tem 1,609 km. Um pace de 5:41/km equivale a cerca de 9:09 por milha. Horários de largada e como acompanhar pelo app estão neste guia de Nova York no horário de Brasília.

    Como a diferença distorce o seu pace

    O relógio calcula o pace médio dividindo o tempo pela distância que ele próprio registrou. Se a distância está inflada, o pace exibido fica mais rápido que o pace real em relação ao percurso. Um exemplo com conta aberta, só para ilustrar:

    • meta: 4h00 na maratona, o que exige pace real de cerca de 5:41/km sobre 42,195 km;
    • se o seu relógio terminar a prova marcando 42,8 km, cada "quilômetro" do relógio corresponde, na média, a cerca de 986 metros do percurso oficial (42,195 ÷ 42,8);
    • quem segura 5:41/km no pace médio do relógio chega aos 42,195 km da tela em 4h00, mas ainda tem cerca de 600 metros de rua pela frente e cruza a chegada perto de 4h03min30s.

    Os números mudam de prova para prova e de corredor para corredor. A lição é a direção do erro: confiar cegamente no pace médio do relógio tende a deixar você alguns segundos por quilômetro mais lento do que imagina.

    O que fazer no dia da prova

    • Use as placas oficiais como referência. Em Nova York, as marcações de milha; em outras provas, as placas de quilometragem, quando a organização sinaliza o percurso. Confira com antecedência no guia do atleta.
    • Faça a volta manual (lap) ao passar por cada placa. Assim o pace de cada trecho é calculado sobre a distância real entre as placas, e não sobre a distância que o GPS acumulou.
    • Prefira o tempo de passagem ao pace médio. Leve as parciais da sua meta anotadas, seja em milhas ou em quilômetros, e compare com o relógio a cada placa.
    • Use o pace atual só como alerta. Ele oscila muito, especialmente sob pontes, em túneis e entre prédios; não reaja a picos de poucos segundos.
    • Se o seu relógio oferece modo de satélites multibanda, avalie ativá-lo. O manual de um fabricante (acesso em 31/10/2026), por exemplo, afirma que o modo multibanda melhora o posicionamento em ambientes difíceis e que usar vários sistemas de satélite reduz a bateria mais rápido. É informação do fabricante, não teste independente; confira o manual do seu modelo.
    • Cuide da bateria. Carregue o relógio na véspera e lembre que uma maratona pode passar de cinco ou seis horas. Teste o modo escolhido em um treino longo, não pela primeira vez na largada.
    • Ligue o GPS e espere o sinal antes de ir para o curral, longe de prédios altos se possível.

    Não vale brigar com a organização por 300 metros

    Se o seu relógio marcou algumas centenas de metros a mais, isso não indica que o percurso estava errado. Como explicado acima, a medição oficial segue a rota mínima e já inclui uma margem para que ninguém corra menos. Um relógio de pulso não tem a precisão de uma medição com bicicleta calibrada, então ele não serve como prova de percurso longo. O seu resultado oficial é o tempo do chip. E se a dúvida for o contrário, se alguém correu menos que o percurso, veja como a cronometragem identifica isso nesta reportagem sobre cortar caminho em maratonas. Para a reta final da preparação, leia também o nosso material sobre carga de carboidrato antes da maratona.

    Independência editorial

    Esta matéria não é publicidade e não contém links de afiliados. Nenhum relógio foi testado pela redação para este texto, e nenhum modelo ou marca é recomendado. O manual de fabricante citado serve apenas para ilustrar o que as configurações de satélite prometem, e as informações atribuídas a ele são do próprio fabricante.

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