Qual pace escolher para Curitiba ou para a São Silvestre? Como prever seu tempo a partir de um 10 km
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    Treino

    Qual pace escolher para Curitiba ou para a São Silvestre? Como prever seu tempo a partir de um 10 km

    Rafael Mendes

    Por Treinos e performance

    Faltam menos de duas semanas para a Maratona de Curitiba, no domingo, 15/11, e menos de dois meses para a São Silvestre, no último dia do ano. Para quem vai correr uma delas, a pergunta desta semana é sempre a mesma: em que pace eu largo? Sair rápido demais cobra a conta no fim. Sair lento demais deixa a sensação de que dava para mais.

    A boa notícia é que você não precisa adivinhar. Um 10 km ou uma meia maratona recente, corridos para valer, já dizem bastante sobre o que você consegue fazer numa distância maior. Este texto mostra uma forma simples de fazer essa estimativa, onde ela costuma errar e como testar o pace num treino antes do dia da prova. Não é planilha nem prescrição individual: é um ponto de partida para você ajustar com o que já conhece do seu corpo e, se tiver, com o seu treinador.

    A conta de Riegel, sem matemática pesada

    Em 1981, o pesquisador americano Peter Riegel publicou na revista American Scientist um estudo sobre recordes esportivos e resistência. Ele mostrou que, quando a distância aumenta, o tempo cresce um pouco mais do que na mesma proporção. Ou seja, quem dobra a distância não consegue manter o mesmo pace: precisa correr um pouco mais devagar. A versão mais usada da fórmula, que está por trás de muitas calculadoras de corrida, faz exatamente isso: pega o seu tempo numa prova, multiplica pela proporção entre as distâncias e acrescenta uma pequena "taxa" pela distância extra.

    Na prática, basta colocar numa calculadora de previsão de prova o tempo de um 10 km ou de uma meia que você correu nas últimas semanas, de preferência em percurso plano, com clima ameno e dando o seu máximo. Quanto mais parecida a prova de referência for com a prova-alvo, melhor tende a ser a estimativa.

    Exemplo ilustrativo, com números redondos só para mostrar a lógica: quem faz 10 km em 60 minutos corre a 6:00 por quilômetro. Pela conta de Riegel, esse corredor faria 15 km em cerca de 1h32 (perto de 6:09/km), a meia maratona em cerca de 2h12 (perto de 6:16/km) e a maratona em cerca de 4h36 (perto de 6:32/km). Repare que o pace fica mais lento conforme a distância aumenta. Isso é o esperado, e não sinal de fraqueza.

    Onde a estimativa costuma falhar

    A fórmula parte de uma premissa importante: que você está tão preparado para a distância longa quanto estava para a curta. Na vida real, nem sempre é assim. Fique atento a estes cenários, porque neles a previsão tende a sair otimista.

    • Pouco volume. Um 10 km forte com poucos longões no histórico não garante uma maratona no mesmo nível. A conta não sabe quanto você treinou, só quanto você correu naquele dia.
    • Calor. Se o seu 10 km de referência foi numa manhã fresca e a prova pode ser quente, o mesmo pace vai custar mais. A largada do pelotão geral da São Silvestre é às 8h08, no fim de dezembro.
    • Altitude de Curitiba. A cidade fica a cerca de 900 metros acima do nível do mar (a prefeitura fala em 934 m). Não é uma altitude extrema, mas quem treina perto do nível do mar pode sentir o esforço um pouco diferente. É mais um motivo para não largar no limite.
    • A subida da Brigadeiro. Na São Silvestre, a Avenida Brigadeiro Luís Antônio aparece na reta final, e o site oficial já indica um posto de hidratação no km 13, na própria Brigadeiro. Um pace calculado para percurso plano não conta com essa subida. Guarde energia para ela.
    • Primeira maratona. Quem nunca correu 42 km ainda não sabe como o corpo reage depois dos 30. O próprio Riegel descreveu essa relação para esforços de até cerca de 3h50, e muita gente passa disso na estreia. Nesses casos, encare a previsão como teto, não como meta.

    Como validar o pace nesta semana

    Estimativa boa é estimativa testada. Escolha um treino-chave da semana, aquele que já estava no seu planejamento, e use uma parte dele para experimentar o pace-alvo. Não invente um treino novo e pesado só para isso.

    • Comece de 5 a 10 segundos por quilômetro mais lento do que o pace estimado.
    • Na segunda metade do trecho, aproxime-se do pace-alvo e termine um pouco mais rápido do que começou. É o chamado split negativo.
    • Preste atenção na sensação: o pace de prova longa deve parecer controlado no começo. Se já estiver difícil de sustentar no treino, ajuste a estimativa para baixo.
    • Confira o pace com cuidado. GPS em avenida com prédios altos, túneis e viadutos pode oscilar, e o Bruno explica como lidar com isso neste texto sobre a precisão do GPS.

    Para quem corre Curitiba, a semana já é de polimento: o teste deve ser curto e encaixado no que estava previsto, sem compensar treino perdido. Revise o que muda nesta reta final no nosso texto sobre as últimas três semanas antes da Maratona de Curitiba. Para a São Silvestre ainda há tempo de repetir o teste mais de uma vez, e o nosso roteiro de 10 semanas para os 15 km ajuda a organizar esse caminho. Se o próprio conceito de pace ainda confunde, vale começar por este guia sobre pace.

    No dia da prova

    Nas duas provas, a organização da largada leva em conta o pace que você informou na inscrição. Em Curitiba, o funil de largada é organizado por esse pace, e a organização pede que o corredor chegue com 40 minutos de antecedência. Na São Silvestre, o pelotão geral larga em ondas de acordo com o pace escolhido na inscrição, e o regulamento informa que ele não pode ser alterado depois do pagamento. O site oficial publica, como referência, as faixas de pace da 100ª edição. Vale conferir antes de se inscrever na 101ª.

    Na hora de correr, o plano é o mesmo do treino: primeiros quilômetros um pouco mais lentos do que o pace-alvo, ritmo estável no meio e, se sobrar energia, aceleração no fim. É muito mais fácil recuperar alguns segundos no final do que pagar por uma largada rápida demais.

    Dor ou tontura: pare

    Nenhum pace vale mais do que a sua saúde. Se sentir dor no peito, tontura, falta de ar fora do normal ou dor que muda o seu jeito de correr, pare e procure a equipe de apoio ou atendimento médico, no treino ou na prova. Com calor, hidrate-se ao longo do percurso e não espere a sede apertar.

    Em resumo

    • Use um 10 km ou uma meia recente, feitos para valer, como base para estimar o pace da prova longa.
    • A conta de Riegel mostra que o pace fica mais lento conforme a distância aumenta, e isso é normal.
    • Pouco volume, calor, altitude, subidas como a da Brigadeiro e a primeira maratona tornam a previsão otimista.
    • Teste o pace num treino-chave da semana: comece de 5 a 10 s/km mais lento e termine com split negativo.
    • Dor ou tontura são motivo para parar, em qualquer pace.

    Fontes

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